O mundo da arte vive da imaginação. A criação nasce da vontade de expressar desejos e sonhos imaginados por visionários. Mas tal como a ficção ganha por estar prestes a ser tocada, sem ser realmente alcançada pela mão humana, também um sonho não ilustrado pode adquirir outra aura. Pode-se tornar na obra-prima que poderia ter sido.

No que diz respeito aos grandes da animação, o nome Studio Ghibli é sem sombra de dúvida um dos mais marcantes. Desde a criação de infindáveis universos por Hayao Miyazaki ao campo mais intimista de Isao Takahata, a Ghibli está por trás de algumas das obras cinematográficas mais marcantes das últimas quatro décadas.

Fundado em 1985, Ghibli já lançou mais de 20 filmes, sendo que se deve destacar A Viagem de Chihiro (2001), O Túmulo dos Pirilampos (1988),  O Meu Vizinho Totoro (1988), Princesa Mononoke (1997), O Castelo Andante (2004) e O Conto da Princesa Kaguya (2013). Apesar de nem todos estes filmes serem para crianças, os que são têm uma ambição artística e temática que chegou a inspirar Hollywood, ao o próprio James Cameron ter considerado Mononoke uma forte inspiração para o seu próprio Avatar (2009).

Tendo isso em conta, é surpreendente que esta lista de projetos cancelados não seja maior… e que metade dos projetos mencionados sejam de uma era pré-Ghibli nas carreiras de Miyazaki e Takahata.

Pipi da Meias-Altas

Miyazaki e Takahata forjaram as suas  carreiras em adaptações de obras literárias europeias clássicas, como Heidi. Durante os anos 70, esse mesmo tratamento poderia ter sido dado a Pipi das Meias Altas, numa adaptação que teria sido realizada por Takahata.

A personagem vem de uma série de livros infantojuvenis suecos da autoria de Astrid Lindgren. Com o título de «a mais forte do mundo» e uma personalidade positiva que aproveita cada pequeno prazer do mundo, Pipi tem como companheiros um cavalo e um macaco, tornando-se ainda mais tarde amiga de duas outras crianças: Tommy e Annika.

Para o projeto, Hayao Miyazaki absorveu tudo o que pôde da vida na Suécia. Observou as ruas ainda antes do amanhecer e fascinou-se pelas casas de gengibre. Como líder da equipa de animação, quis absorver o máximo que pudesse de um projeto que tanto o fascinava.

Por sua vez, Isao Takahata tinha ficado impedido de realizar outro filme na Toei Animation após o fracasso de O Pequeno Príncipe Nórdico, em 1968. Via no livro de Pipi um momento marcante da literatura no qual as crianças eram paradas de ser tratadas como criaturas que precisavam de ser domadas para a vida adulta. Aos seus olhos, esta era uma história que as deixava ser quem eram.

Devido às limitações de viagens desta altura, Miyazaki entregou todo o seu coração ao projeto pois sabia que não poderia regressar da Suécia sem algo para mostrar. Chegou até mesmo a pedir tudo o que havia num menu para poder ver como cada prato era preparado.

O animador aproveitou a viagem à Suécia ao máximo para desenvolver o projeto, mas faltava ainda resolver uma questão: A equipa conseguir encontrar-se com a autora Astrid Lindgren. Ela tinha odiado uma adaptação em cinema de 1949 e numa adaptação de 1969 para a televisão, tinha chegado a insistir em escrever os guiões de todos os episódios. Devido aos animadores terem finalmente de apanhar o avião de regresso, ao mesmo tempo que a autora não era convencida a sair do seu escritório, ficaram de mãos a abanar.

Mesmo após esta visita, Miyazaki ainda não tinha desistido da adaptação. Continuou a pegar nas suas experiências em Visby para alimentar storyboards de uma série que nunca seria feita.

O capítulo poder-se-ia ter encerrado aqui: Um projeto abortado e uma viagem em vão.

Mas eis que em 1972 o Japão conciliou as suas relações com a China e recebeu dois pandas como prenda. A nação ganhou uma febre por pandas que ajudaria a que um projeto de Takahata recebesse a luz verde: Panda Go Panda (1972). Esta história inclui uma menina estranhamente parecida a Pipi:

Miyazaki admite ter aproveitado muito do que tinha absorvido na Suécia para a estética e isso está também presente numa longa-metragem que ele próprio viria a realizar vários anos depois: Kiki – A Aprendiz de Feiticeira.

Abaixo podem conferir alguma da arte criada:

Rowlf

Miyazaki quase seguiu uma trajetória de carreira inesperada em Rowlf, a adaptação de uma Banda Desenhada americana da autoria de Richard Corben.

O personagem titular é o cão de uma princesa que a tenta salvar após esta ter sido raptada por demônios. Entretanto, um feiticeiro que acredita que Rowlf matou a princesa tenta-o transformar em humano, para que admita os seus crimes. O feitiço falha e em vez disso, ele torna-se num híbrido entre humano e cão.

A banda desenhada original era sangrenta, à medida que Rowlf ia na sua jornada para matar demônios. Tal como outras histórias que acabaram por ir parar à revista Heavy Metal, há um forte foco em exploitation, com muita violência e nudez.

Mas Miyazaki teria dado à obra uma nova roupagem. Apesar da natureza da história, está saliente que o seu estilo característico teria permanecido, o que provavelmente entrava em conflito com o estilo da história original.

Uma das mudanças principais teria sido o facto do protagonista se ter tornado humano devido ao amor que sentia pela princesa. Talvez seja devido a esta e outras mudanças no tom que o autor original tenha recusado a adaptação.

Apesar disto, a estética de tecnologia dentro de um mundo medieval teve uma clara influência no filme que Miyazaki faria a seguir: Nausicaä.

Porco Rosso: A Última Sortie

Numa decisão rara para o estúdio, a Ghibli quase voou pelos ventos turbulentos de uma sequela. Deste projeto há pouca informação para além do seu título Porco Rosso: A Última Sortie

O filme original centrava-se num ex-piloto de aviões de guerra da Primeira Grande Guerra Mundial que agora trabalha como um caçador de prémios que caça piratas do ar. Uma estranha maldição transformou-o num porco, mas sendo o filme passado no final dos anos 20, e estando o personagem a presenciar o aumento do nacionalismo, a sua maior preocupação é expressa numa simples afirmação:

«Antes um porco que um fascista».

A sequela ter-se-ia passado vários anos depois durante a Guerra Civil Espanhola. Miyazaki revelou pouco sobre o filme para além do facto de que esperava entregar a realização a Hiromasa Yonebayashi. O seu plano era mostrar um personagem envelhecido e veterano, o que provavelmente tornava o projeto tão pessoal para Miyazaki.

A Última Sortie não foi formalmente cancelada mas com a falta de notícias sobre o filme e o facto de Yonebayashi ter abandonado o estúdio para fundar o seu próprio Studio Ponoc, o futuro de Porco Rosso está tão incerto como o destino do personagem na última cena do filme.

Border 1939

Border 1939 teria sido o segundo filme de Isao Takahata depois de O Túmulo dos Pirilampos. Neste ambicioso épico histórico, o realizador teria tido um protagonista mais convencionalmente heróico do que costumava acontecer nas suas outras histórias mais pessoais.

A narrativa segue Akio, um estudante universitário japonês que vai para a Manchuria para procurar o seu amigo Nobuhiko, que alegadamente morreu num acidente militar. Akio descobre que o amigo se juntou a uma resistência anti-japonesa e tem na verdade ascendência mongol. Akio é torturado pela polícia mas acaba por querer provar a sua lealdade ao ajudar a escoltar Akiko, outro Mongol, pelos campos mongóis para o levar a casa. Takahata queria usar o filme para criticar o imperialismo japonês, que é um tema também presente em Túmulo dos Pirilampos.

Takahata tinha 3 objetivos:

  1. Ter o mundo real como um espaço entusiasmante para aventuras em anime, em vez de mundos fictícios;
  2. Ensinar a audiência mais nova sobre o militarismo japonês e explicar porque este sentimento não pode regressar;
  3. Forçar a audiência a pensar em como deve construir a sua identidade, seja ela pessoal ou nacional.

O filme não aconteceu devido aos protestos de Tiananmen em junho de 1989, quando as opiniões japonesas passaram a ser contra a China. Por causa disso, a distribuidora do estúdio sentiu que um filme com eventos passados na China seria demasiado arriscado.


Texto da autoria de Adriano Viçoso.

Adriano Viçoso, natural de Faro, é um entusiasta de cinema e aspirante a cineasta. Como cofundador do Cabo Cinético em 2016, já fez diversos vídeos sobre cinema e televisão para o YouTube e é co-host do Podcast de animação Cassete Estragada com Álvaro Cunha.

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